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O jantar de gala dos correspondentes da Casa Branca, um dos eventos mais tradicionais do calendário político e social de Washington, ganhou contornos inesperados no sábado, ao se transformar em cenário de tensão e investigação policial. Um homem armado tentou atacar Donald Trump, obrigando a evacuação e a escolta reforçada do presidente dos Estados Unidos e da primeira-dama, que participavam pela primeira vez do evento.

O que deveria ser uma celebração do jornalismo político e da convivência entre imprensa e poder acabou se convertendo em uma cena de máxima segurança. Mais do que o susto imediato, o episódio trouxe à tona, para o grande público, um conceito pouco conhecido fora dos Estados Unidos: o do “designated survivor”, em português, “sobrevivente designado”.

Na ficção, “Designated Survivor” é um drama político que acompanha a ascensão inesperada de Tom Kirkman, interpretado por Kiefer Sutherland, à Presidência dos Estados Unidos. A trama começa com um atentado catastrófico ao Capitólio durante o discurso do Estado da União, que mata o presidente e todos os membros do gabinete, exceto Kirkman, um secretário de Habitação de baixo escalão que havia sido escolhido como o “sucessor designado”. De um momento para o outro, ele precisa assumir o comando da nação mais poderosa do mundo.

Uma função real, invisível e cercada de sigilo absoluto

O “sobrevivente designado” é uma peculiaridade do sistema político norte-americano e ocupa uma função tão estratégica quanto desconhecida. Trata-se de um membro do gabinete presidencial que, em determinadas circunstâncias, é retirado do local onde estão reunidos os principais líderes do país e mantido em um local seguro, cujo endereço é mantido em sigilo absoluto.

Seu papel é simples e, ao mesmo tempo, extremo: garantir a continuidade do governo caso um evento catastrófico elimine, de uma só vez, o presidente, o vice-presidente e a maior parte da cadeia sucessória. Durante grandes eventos — como discursos do Estado da União, cerimônias oficiais ou reuniões que reúnem simultaneamente o presidente, o vice, parlamentares e membros do gabinete —, uma única pessoa é deliberadamente mantida fora do alcance de qualquer ataque.

Ela não aparece, não dá entrevistas, não publica nada e não pode, sob nenhuma hipótese, revelar sua condição. O sigilo é tão rigoroso que nem mesmo seus familiares são informados. Em geral, o escolhido só toma conhecimento de sua missão pouco antes do evento, recebendo instruções diretas dos serviços de segurança.

A prática tem origem no período mais tenso da Guerra Fria, quando os Estados Unidos viviam sob o temor constante de um ataque nuclear soviético. A possibilidade de que toda a liderança política fosse eliminada em questão de minutos levou o governo americano a estruturar mecanismos para evitar um vácuo completo de poder.

O conceito existia de forma discreta há décadas, mas só veio a público pela primeira vez em 1981, durante o governo de Ronald Reagan. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, o mecanismo foi ainda mais reforçado e sistematizado. O trauma de ver instituições centrais atacadas levou à ampliação dos protocolos de sucessão e à consolidação desse papel como peça fixa da segurança institucional norte-americana.

Não está na Constituição, mas é lei

Curiosamente, o cargo de sobrevivente designado não existe na Constituição dos Estados Unidos. Sua base legal está exclusivamente no Código Federal, que regula a sucessão presidencial e os dispositivos de emergência do Executivo. Não há regras rígidas ou formais quanto à escolha da pessoa que exercerá essa função. Em geral, a decisão cabe ao presidente dos Estados Unidos ou, em alguns casos, ao chefe de gabinete da Casa Branca.

O critério principal não é político, mas legal: existe apenas uma condição incontornável para ser escolhido como sobrevivente designado — ser constitucionalmente elegível para a presidência. Isso significa cumprir os mesmos requisitos exigidos a qualquer cidadão que aspire ao cargo máximo do país: ter pelo menos 35 anos de idade e ser cidadão norte-americano nato. Fora isso, não há hierarquia fixa. O sobrevivente designado pode ser um secretário considerado central — como Defesa ou Estado — ou alguém de perfil mais discreto.

Para quem assume essa função, o peso é silencioso. Em um cenário extremo, essa pessoa poderia se tornar, em questão de segundos, o único elo legítimo do Poder Executivo ainda em funcionamento. O episódio de sábado, em Washington, mostrou que, mesmo em eventos simbólicos e aparentemente festivos, a possibilidade do imprevisível nunca é descartada pelos sistemas de segurança dos Estados Unidos.

Com informações de Metrópoles

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