Joilson Souza
A solenidade de posse da nova diretoria da Associação dos Escritores do Estado do Amazonas (ASSEAM), realizada no último dia 1º de agosto, foi marcada por um momento que extrapolou o protocolo institucional. Entre discursos e compromissos com o futuro da literatura amazonense, a apresentação de Nivaldo Mota, atual Diretor Cultural da entidade, trouxe ao público uma experiência artística de rara sensibilidade por meio da interpretação de Oração do Beiradão.
Em tempos em que a velocidade muitas vezes atropela a contemplação, ver um intérprete respeitar o tempo da palavra é quase um privilégio. Nivaldo compreendeu que um texto poético não se impõe pela força da voz, mas pela verdade com que é oferecido ao público.
Sua atuação revelou domínio dos elementos fundamentais da interpretação. A respiração sustentou o ritmo da narrativa sem atropelar as pausas, permitindo que cada silêncio encontrasse significado próprio. O olhar, firme e expressivo, estabeleceu uma comunicação direta com a plateia, enquanto os gestos, contidos e precisos, evitaram qualquer excesso, deixando que o texto permanecesse como protagonista.
O figurino também dialogou com essa proposta de sobriedade. Sem recorrer ao espetáculo visual, cumpriu seu papel de reforçar a atmosfera da obra, contribuindo para uma composição cênica harmoniosa e coerente.
Mais do que técnica, entretanto, chamou atenção a entrega emocional. Em nenhum momento a interpretação pareceu artificial ou ensaiada em excesso. Ao contrário, havia naturalidade suficiente para que sentimentos como fé, esperança, pertencimento e humanidade alcançassem o público com autenticidade.
A escolha de Oração do Beiradão revelou-se particularmente feliz para a ocasião. A obra evoca a alma amazônica, suas margens, sua espiritualidade e sua resistência, dialogando diretamente com a missão da ASSEAM de preservar e promover a literatura produzida na região.
Como Diretor Cultural, Nivaldo Mota deixou uma mensagem que vai além da própria apresentação: promover cultura também é ocupar o palco, dar voz aos autores e lembrar que a literatura continua viva quando encontra intérpretes capazes de transformar versos em emoção compartilhada.
Em uma noite dedicada à renovação dos compromissos da ASSEAM, a arte cumpriu seu papel mais nobre: aproximou pessoas, despertou sentimentos e lembrou que a palavra, quando pronunciada com verdade, continua sendo uma das mais poderosas formas de permanência.
Mais que uma apresentação artística, foi uma afirmação de que a literatura amazonense continua encontrando intérpretes capazes de honrar sua tradição e projetá-la para o futuro.Se essa será sua coluna semanal, posso também dar a ela uma identidade fixa, com um fechamento autoral marcante, para que os leitores reconheçam seu estilo a cada edição.
A palavra que ganhou voz no palco – por Joison Souza pic.twitter.com/61TiKBXcXr
— Fato Amazônico (@fatoamazonico) August 6, 2026





