Por Luís Lemos: professor, filósofo e escritor.

Poucos escritores brasileiros conseguiram compreender a alma humana com tanta profundidade, ironia e coragem quanto Nelson Rodrigues. Cronista das paixões, dos conflitos familiares, das hipocrisias sociais e das contradições do cotidiano, ele transformou em literatura aquilo que muitos preferiam ocultar. Décadas após sua morte, suas ideias continuam provocando debates porque abordam sentimentos, dilemas e comportamentos que permanecem presentes em qualquer época. Por isso, selecionei sete lições de sua obra e de seu pensamento que podem nos ajudar a compreender melhor a nós mesmos e a sociedade em que vivemos.

1ª lição: “Toda unanimidade é burra.” Em tempos de redes sociais, cancelamentos e discursos repetidos sem reflexão, essa talvez seja uma das frases mais atuais de Nelson Rodrigues. Ela nos lembra que pensar por conta própria continua sendo um exercício indispensável. O consenso absoluto raramente favorece o pensamento crítico, enquanto a divergência respeitosa amplia horizontes e fortalece a democracia. Questionar ideias prontas e não ter medo de discordar é uma forma de preservar a autonomia intelectual em meio ao ruído das multidões.

2ª lição: “O homem pode amar o seu sofrimento, mas não ama o seu tédio.” A frase revela uma compreensão profunda da natureza humana. Muitas pessoas suportam dores, perdas e dificuldades, mas têm enorme dificuldade em lidar com uma existência vazia de significado. O tédio frequentemente nasce da ausência de propósito, de paixão e de vínculos verdadeiros. Mais do que conforto ou estabilidade, o ser humano necessita sentir que sua vida possui direção, intensidade e sentido.

3ª lição: “Sem paixão, o ser humano é apenas uma força que dorme.” Vivemos em uma época de cansaço emocional, automatização das rotinas e excesso de preocupações. Nesse contexto, a paixão, entendida como entusiasmo pela vida, pelo trabalho, pela arte, pelo amor ou pelos sonhos, torna-se uma energia essencial para a existência. Quem perde a capacidade de se entusiasmar corre o risco de apenas sobreviver aos dias, sem realmente vivê-los em sua plenitude.

4ª lição: “Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.” Com seu humor ácido e sua provocação característica, Nelson Rodrigues denunciava as contradições e hipocrisias da sociedade. A frase não deve ser lida literalmente, mas como uma crítica às relações marcadas pelo interesse, pela conveniência e pela mercantilização dos afetos. Em uma época em que prestígio, aparência e status frequentemente ocupam o lugar dos sentimentos genuínos, a provocação continua desconfortavelmente atual.

5ª lição: “O adulto não existe.” Por trás das responsabilidades, dos cargos e das aparências de maturidade, continuam habitando medos, inseguranças, sonhos e carências que atravessam toda a vida humana. A idade não elimina fragilidades nem oferece respostas definitivas para os dilemas da existência. Talvez por isso seja tão importante cultivar a empatia e a compreensão diante das limitações dos outros e das nossas próprias limitações.

6ª lição: “A vida como ela é.” Mais do que o título de uma célebre série de crônicas, essa expressão resume a própria visão de mundo de Nelson Rodrigues. A vida real não é feita apenas de vitórias, felicidade e perfeição. Ela também abriga fracassos, ambiguidades, desejos, arrependimentos e contradições. Em uma sociedade cada vez mais dedicada à construção de imagens idealizadas de sucesso, reconhecer a imperfeição da existência talvez seja um dos caminhos possível para uma vida mais autêntica.

7ª lição: “Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem.” Embora essa frase seja conhecida e polêmica, ela reflete o contexto machista e provocador de uma época, não devendo ser tomada como verdade ou ensinamento válido para os dias atuais. Ao contrário, revisitá-la hoje nos ajuda a perceber o quanto a sociedade evoluiu na compreensão do respeito, da dignidade e dos direitos das mulheres. Ler Nelson Rodrigues também exige senso crítico para separar provocações literárias de valores humanos essenciais.

Por fim, Nelson Rodrigues continua atravessando gerações porque escreveu sobre aquilo que há de mais humano em nós: desejos, medos, contradições e fragilidades. Em uma sociedade marcada pelas aparências e pela busca da perfeição, sua maior lição talvez seja esta: aceitar a vida e a nós mesmos como realmente somos. Que nunca nos falte coragem para enxergar a vida como ela realmente é!

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