Por Luís Lemos: filósofo, professor e escritor
Para abrir a edição de 2026 do projeto Vozes da Filosofia de Manaus, apresentamos a filósofa, professora, doutora, pesquisadora e editora Neiza Teixeira, uma das referências mais importantes da filosofia amazonense contemporânea. Esta iniciativa busca divulgar a trajetória e a produção intelectual de pensadores locais, valorizando a filosofia produzida na Amazônia. Nesta entrevista exclusiva, Neiza compartilha sua jornada, suas obras e suas reflexões sobre o pensamento filosófico amazônico. Leia, reflita e inspire-se com a nossa entrevistada de hoje!
1. Quem é você? Conte-nos um pouco sobre sua história de vida, sua formação e sua trajetória na Filosofia. Em qual instituição e em que ano você se graduou em Filosofia?
Eu sou Neiza Teixeira. Nasci no Paraná do Limão do Meio, próximo a Parintins; cresci na Baixa do São José, por isso sou Garantido. Estudei no Grupo Escolar Waldemar Pedrosa, na Escola São José Operário e no Colégio Batista de Parintins. Vim para Manaus, em meados da década de 1970, para estudar Filosofia na Universidade Federal do Amazonas, na qual posteriormente fiz concurso para professora do Departamento de Filosofia e fui aprovada. Realizei mestrado e doutorado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em Portugal. Dei aulas durante dez anos no Instituto Superior de Ciências Educativas (ISCE), no distrito do Porto. Também trabalhei no Erich Wilker Museum, na Alemanha. Atualmente, trabalho na Editora Valer como coordenadora editorial.
2. Como nasceu o seu interesse pela Filosofia? Houve algum acontecimento, professor, livro, experiência ou autor que tenha despertado em você o desejo de seguir esse caminho intelectual?
O meu primeiro contato com a Filosofia aconteceu na década de 1970, quando eu jogava vôlei pela seleção de Parintins. Em um dos jogos, um atleta chamado Telles deu-me de presente um livro de Platão. Anos depois, optei por estudar Filosofia, o que faço até hoje.
3. Você possui livros ou outras obras publicadas? Em caso afirmativo, apresente-os brevemente e conte-nos um pouco sobre os temas ou questões que eles abordam.
Sou autora dos livros “Para aquém ou para além de nós: uma contribuição do pensamento “primitivo” ou “bárbaro” para o pensar do futuro” e “Poetas, filósofos e xamãs: um encontro com a Palavra”. Escrevi, em Paris, o livro “Para aquém ou para além de nós”, que tem como questão central a seguinte indagação: o que um pensamento não ocidental tem a contribuir para um “novo pensar”? A reflexão tem como núcleo o estudo do mito, o mito Desana, o canto dos Guaranis, entre outras referências, bem como suas relações com a Arte, a Poesia e o Cinema, por exemplo. Já “Poetas, filósofos e xamãs”, busca compreender a forma de composição do pensamento indígena na constituição desse “novo pensar”. Concluo que isso ocorre por meio da Palavra Sagrada: aquela que fundamenta, cura e revela. Essa palavra manifesta-se na Filosofia, na Poesia e no mito, sendo anunciada pelos seus escolhidos: poetas, filósofos e xamãs. Esse livro também apresenta uma formulação inédita para o ensaio, uma vez que propõe um formato que amplia os limites tradicionalmente impostos a esse gênero textual.
4. Em sua opinião, quais são os maiores desafios enfrentados por quem escolhe a Filosofia como profissão, vocação ou modo de vida?
No meu entendimento, a Filosofia é um dos saberes mais difíceis. Por isso, quem a ela se dedica deve fazê-lo com sangue, com alma e com razão. Por outro lado, como ler “Assim falou Zaratustra” sem se revolver interiormente? Como ler “A origem da obra de arte” sem passar, talvez, uma vida inteira refletindo sobre as ideias que Heidegger nela expõe? A Filosofia exige entrega e trabalho árduo. A recompensa é aproximarmo-nos do mundo.
5. Que mensagem você gostaria de deixar aos leitores do portal Fato Amazônico, especialmente aos que ainda não tiveram a oportunidade de se aproximar da Filosofia?
Aos leitores e às leitoras do Fato Amazônico, diria que precisamos desenvolver o nosso sentimento de pertença, e isso se constrói por meio da valorização e do conhecimento daquilo que fazemos. Nesse sentido, o Jornal do Commercio sempre contribuiu para a consolidação desse sentimento, como evidencia a sua história. Se não fosse comprometido conosco, por que se preocuparia com a Filosofia?





