Das águas que sustentam o modo de vida do povo Paumari, do médio rio Purus, no Amazonas, emerge uma história de resistência, cuidado e transformação. Há 17 anos, o manejo sustentável do pirarucu vem sendo construído de forma coletiva, com base no conhecimento tradicional e na relação profunda com o território. Ao longo desse processo, as mulheres indígenas têm ampliado sua atuação, fortalecendo seu protagonismo e assumindo papéis cada vez mais centrais na condução da atividade.

Essa trajetória também é marcada por parcerias que contribuíram para o fortalecimento do manejo. Desde a primeira pesca manejada, realizada em 2013, o povo Paumari conta com o apoio do projeto Raízes do Purus, desenvolvido pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) em parceria com a Petrobras, somando esforços à organização comunitária e à valorização do conhecimento tradicional.

Foi esse movimento coletivo que alcançou, em março, um reconhecimento histórico em Brasília. A presidente da Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA), Ana Paula Paumari, tornou-se a primeira mulher indígena a ser homenageada pelo Prêmio Mulheres das Águas, promovido pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). A premiação, que reconheceu 14 mulheres de destaque em todo o país, celebra não apenas uma trajetória individual, mas a força do povo Paumari.

Durante a cerimônia, autoridades destacaram a relevância da atuação das mulheres homenageadas. “Esse prêmio é pouco diante do que essas mulheres merecem como exemplos de seres humanos”, afirmou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Estreia de categoria dedicada aos povos indígenas

O ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, ressaltou que a premiação busca dar visibilidade a trajetórias inspiradoras e incentivar novas gerações. “Queremos dar luz ao exemplo de vida dessas mulheres, para que ele se multiplique e seja seguido”, disse. O ministro também destacou o ineditismo da homenagem a uma liderança indígena, com a participação da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, na entrega do prêmio.

Com o troféu nas mãos, Ana Paula Paumari evidenciou que o reconhecimento ultrapassa sua trajetória individual e representa todas as mulheres de seu povo. “É um momento incrível, gratificante e único. Nunca imaginei um dia poder trazer a identidade do meu povo, das mulheres manejadoras, e ter esse reconhecimento enquanto mulher indígena e manejadora”, afirmou a presidenta da AIPA.

O evento reuniu ainda diversas autoridades do governo federal, como a primeira-dama, Janja Lula da Silva; a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco; a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos; a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara; e a deputada federal Célia Xakriabá.

Ao longo dos anos, a trajetória do povo Paumari também vem acumulando reconhecimentos institucionais  no manejo sustentável do pirarucu, como o 12º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, recebido em 2024. Conquistas como essa ampliam a visibilidade da iniciativa e reforçam, em diferentes espaços, a força do conhecimento tradicional e da organização coletiva.

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