Fotos: Divulgação e Vilomar Bispo (Drone)

Uma mobilização inédita no coração do Vale do Javari garantiu acesso à documentação civil para indígenas do povo Kanamari e revelou uma demanda reprimida histórica por cidadania em uma das regiões mais isoladas do Amazonas. Ao todo, 1.325 atendimentos foram realizados durante uma ação que levou serviços essenciais até a aldeia Massapê e comunidades próximas, no município de Atalaia do Norte.

A iniciativa ocorreu entre os dias 13 de fevereiro e 5 de março, ao longo do rio Itacoaí — uma área de difícil acesso, a cerca de nove horas de viagem fluvial da sede do município. A logística desafiadora não impediu o alcance da ação, que ultrapassou em mais de quatro vezes a previsão inicial de atendimentos, estimada em cerca de 300 indígenas.

Entre os principais serviços oferecidos estiveram a emissão de certidões de nascimento (primeira e segunda via), retificações de registros e a inclusão da etnia nos documentos — medida considerada fundamental para o reconhecimento da identidade cultural dos povos indígenas.

O Cartório Almeida de Lima, de Atalaia do Norte, teve papel decisivo na execução da ação, sendo responsável por cerca de 700 atendimentos. A tabeliã Mariana Almeida de Lima destacou que a alta procura evidencia a urgência de ampliar esse tipo de iniciativa na região.

“Os números mostram que há uma grande necessidade por esse serviço. Conseguimos atender muito além do esperado, mas sabemos que ainda há muitas pessoas sem documentação. A ideia agora é expandir esse trabalho e alcançar ainda mais comunidades”, afirmou.

A ação foi resultado de uma articulação conjunta entre diversas instituições, incluindo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Justiça Itinerante, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Defensoria Pública, o setor de Identificação Civil e a Prefeitura de Atalaia do Norte.

Além de assegurar o direito básico à documentação, a iniciativa abre portas para que os indígenas tenham acesso a políticas públicas, programas sociais, serviços de saúde e educação, fortalecendo a inclusão social dessas populações.

Realizada em uma das maiores terras indígenas do Brasil, a ação reforça a importância de levar o Estado a regiões historicamente negligenciadas, garantindo direitos fundamentais e valorizando a diversidade cultural dos povos originários do Amazonas.

Artigo anteriorTrinity Peterson-Mayes: de sobrevivente de câncer a paciente de botulismo raro
Próximo artigoPessoas com situação cadastral inconsistente no Amazonas Meu Lar devem fazer a atualização de dados, alerta Sedurb