Joilson Souza
Joilson Souza

Na proa do barco, a conversa corre igual rio em tempo de cheia, mas também sabe parar quando a estiagem aperta e o leito mostra a areia. É nesse silêncio que o caboclo reflete: política não é só discurso bonito, é decisão que pesa na vida de quem vê o rio secar e fica sem transporte, sem peixe, sem sustento. A estiagem é lembrança dura de que a Amazônia precisa ser cuidada com seriedade.

Mas conversa boa não se faz só de preocupação. Tem também o cafezinho passado na hora, cheiro forte que junta vizinho e parente, e a bolacha de motor que acompanha a prosa como quem dá ritmo à fala. É nesse ambiente simples e acolhedor que a cultura se fortalece: o boi-bumbá que emociona em junho, o artesanato que nasce da mão habilidosa, a música que ecoa nas praças.

No cotidiano, os assuntos se misturam: o preço da farinha, a juventude que sonha com oportunidade, a internet que chega devagar, a mata que precisa ser preservada. Tudo isso vira pauta na roda de conversa, sem pressa, como quem navega o rio e deixa a correnteza levar.

Na proa, cada palavra é semente lançada na água. O que se planta hoje floresce amanhã em consciência, união e esperança. É espaço de escuta e de fala, onde o caboclo se reconhece e se fortalece. E quem se achega pra ouvir sente que dali pode nascer coisa grande: conversa que vira movimento, reflexão que vira ação.

Artigo anteriorA FALÊNCIA DA EDUCAÇÃO  SUPERIOR NO BRASIL
Próximo artigoVozinha mira vaga de Cabo Verde no mata-mata da Copa: “Viemos competir”