
As empresas estatais federais encerraram o primeiro semestre de 2026 com um déficit primário de R$ 7,8 bilhões, o pior resultado já registrado para o período desde o início da série histórica do Banco Central, em 2002. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (31) e mostram uma deterioração significativa das contas dessas empresas, com um rombo praticamente duas vezes maior do que o registrado no mesmo intervalo de 2025.
Entre janeiro e junho do ano passado, o déficit das estatais federais havia sido de R$ 3,9 bilhões. O resultado atual também supera o recorde anterior para um ano inteiro, quando as empresas controladas pela União fecharam 2024 com déficit de R$ 6,7 bilhões.
Os números reforçam a preocupação do governo com a situação financeira de parte das empresas públicas, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades para equilibrar receitas e despesas em meio ao aumento dos custos operacionais.
Considerando também as estatais administradas por estados e municípios, o déficit registrado apenas no mês de junho foi de R$ 1,5 bilhão. No acumulado dos últimos 12 meses encerrados em junho, o resultado negativo desse conjunto de empresas chegou a R$ 8,5 bilhões, segundo o Banco Central.
A metodologia utilizada pela autoridade monetária não inclui instituições financeiras públicas, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exercerem atividades voltadas à intermediação financeira.
Também não faz parte da série estatística a Petrobras, que deixou de integrar o levantamento em razão de seu modelo de governança e da autonomia para captar recursos no mercado, características semelhantes às de empresas privadas de capital aberto.
O levantamento contempla empresas públicas como Correios, Infraero, Casa da Moeda, Serpro, Dataprev, Hemobrás e Emgepron, entre outras controladas pelo governo federal.
Entre todas as estatais, os Correios aparecem como um dos principais responsáveis pela deterioração das contas públicas. A empresa encerrou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões e, segundo avaliações do próprio governo, a expectativa é de que o resultado negativo permaneça elevado ao longo de 2026.
Para enfrentar a crise financeira, a estatal iniciou um amplo plano de reestruturação. Entre as medidas adotadas estão a redução de despesas administrativas, a implementação de um programa de demissão voluntária, mudanças nos planos de saúde e previdência complementar dos funcionários, além da venda de imóveis considerados ociosos.
A empresa também promoveu reajustes em tarifas e busca ampliar suas fontes de receita para reduzir a dependência dos serviços tradicionais de correspondência.
No fim de 2025, os Correios contrataram um empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia do Tesouro Nacional. Além disso, o Conselho Monetário Nacional autorizou a companhia a captar até R$ 8 bilhões adicionais por meio de novas operações de crédito igualmente garantidas pela União.
Outra estratégia adotada pelo governo foi ampliar o campo de atuação comercial da estatal. Os Correios receberam autorização para oferecer novos serviços, como seguros, títulos de capitalização e telefonia, por meio de parcerias com empresas privadas, buscando compensar a redução das receitas provenientes das postagens internacionais e do envio de cartas, segmento que vem encolhendo nos últimos anos.
Estudo da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal, aponta que a empresa enfrenta uma combinação de fatores que agrava sua situação financeira. Entre eles estão a queda nas receitas tradicionais e o crescimento das despesas com folha de pagamento, planos de saúde, fundo de pensão, precatórios, transporte e encargos decorrentes do atraso no recolhimento de tributos.
O desempenho das estatais é acompanhado de perto pelo mercado financeiro e pelos órgãos de controle fiscal, já que resultados negativos podem aumentar a necessidade de apoio financeiro por parte da União e exercer pressão adicional sobre as contas públicas. Especialistas avaliam que a continuidade dos programas de reestruturação e a adoção de medidas para ampliar a eficiência operacional serão determinantes para reduzir os déficits registrados pelas empresas controladas pelo governo federal nos próximos anos.







