
O tráfico de pessoas segue fazendo vítimas brasileiras por meio de falsas ofertas de emprego no exterior. Um dos casos mais recentes envolve um grupo de 26 brasileiros presos no Laos durante uma operação contra uma rede de golpes virtuais. Enquanto aguardam informações oficiais, familiares denunciam a falta de contato com os detidos e temem pelas condições em que eles estão. Organizações que atuam no combate ao tráfico humano alertam que o episódio revela apenas uma pequena parte de um problema que cresce silenciosamente e já transformou o Sudeste Asiático em um dos principais destinos desse tipo de crime.
Na semana em que foi celebrado o Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, a irmã de um dos brasileiros presos relatou que a família está há mais de 20 dias sem qualquer notícia do parente. Identificada apenas como Maria, por questões de segurança, ela contou que o irmão viajou para o exterior em novembro de 2025 após aceitar uma proposta para trabalhar em um suposto call center na Tailândia.
Segundo ela, a viagem aconteceu de forma repentina. O irmão informou que trabalharia no país asiático, mas a família descobriu posteriormente que o destino verdadeiro era o Camboja. Antes de viajar, ele trabalhava como motorista de aplicativo, administrava um imóvel alugado para eventos e cursava Direito. A redução da renda o levou a aceitar a oferta.
Maria afirma que a família estranhou desde o início alguns detalhes da viagem. O irmão não possuía recursos para custear as passagens nem passaporte. Mesmo assim, embarcou após informar que um amigo havia pago toda a documentação e as despesas.
As primeiras mensagens enviadas do exterior despertaram preocupação. Segundo ela, o comportamento do irmão era incomum, como se estivesse sendo constantemente monitorado. Com o passar dos meses, as conversas ficaram cada vez mais raras e limitadas a mensagens de texto. Ele nunca aceitava chamadas de vídeo.
O último contato ocorreu em 11 de julho. Poucos dias depois, as mensagens deixaram de ser entregues. Somente no dia 17, a família soube, por intermédio de um amigo, que ele havia sido preso em Vientiane, capital do Laos, durante uma operação policial que desmantelou uma rede de golpes virtuais.
A ação resultou na prisão de 122 pessoas, incluindo 26 brasileiros. A organização Exodus Brasil, que acompanha familiares das vítimas, trata os casos como tráfico internacional de pessoas.
Segundo a diretora da entidade, Cintia Meirelles, muitas vítimas são atraídas por promessas de altos salários, moradia e alimentação custeadas pelas empresas contratantes. Ao chegarem ao destino, porém, têm os passaportes confiscados e passam a trabalhar em centros de fraudes eletrônicas sob ameaças constantes.
Ela explica que esses locais operam falsos call centers utilizados para aplicar golpes financeiros em diversos países. Entre as fraudes praticadas estão falsos atendimentos em nome de empresas de comércio eletrônico, órgãos públicos e operadoras de telecomunicações.
Os trabalhadores podem cumprir jornadas de até 18 horas por dia, submetidos a metas rígidas, violência psicológica e restrições de liberdade. Em muitos casos, somente conseguem deixar o local após quitar supostas dívidas impostas pelos criminosos ou cumprir determinado período de trabalho.
Segundo a organização, o recrutamento costuma ocorrer por meio de pessoas conhecidas das vítimas. Criminosos identificam jovens em situação de vulnerabilidade econômica e oferecem salários que podem chegar a US$ 10 mil mensais, tornando as propostas extremamente atrativas.
O Laos faz parte da região conhecida como Triângulo Dourado, área de fronteira com Mianmar e Tailândia historicamente ligada ao tráfico de drogas. Nos últimos anos, porém, o local também se consolidou como um dos principais polos mundiais de tráfico de pessoas para exploração em golpes virtuais.
Dados apresentados pelo primeiro-ministro do Laos mostram que apenas no primeiro semestre deste ano o país realizou 44 operações contra esses grupos criminosos, resultando na prisão de 4.482 pessoas de 25 nacionalidades diferentes.
Os números brasileiros também apontam crescimento desse tipo de crime. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Camboja foi o principal destino de brasileiros identificados como vítimas de tráfico internacional em 2025, concentrando mais da metade dos casos registrados.
Ao todo, o Protocolo Operacional Padrão de Atendimento às Vítimas Brasileiras do Tráfico Internacional de Pessoas identificou 84 vítimas no ano passado, um aumento de 33,3% em comparação com 2024.
O relatório destaca que boa parte do recrutamento ocorre pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, utilizando falsas ofertas de emprego, principalmente nas áreas de tecnologia e atendimento ao cliente.
Apesar do crescimento dos registros, especialistas acreditam que a quantidade real de vítimas seja muito maior. Muitas pessoas não percebem que foram traficadas ou têm receio de denunciar os responsáveis.
Além das falsas oportunidades de trabalho, o tráfico de pessoas também engloba exploração sexual, trabalho análogo à escravidão, servidão, adoção ilegal e remoção de órgãos, conforme prevê a legislação brasileira.
Outro dado que chama atenção é a mudança no perfil dos casos investigados pela Polícia Federal. Em 2025, a exploração sexual passou a liderar os inquéritos, superando os casos relacionados ao trabalho escravo. As mulheres também passaram a representar a maioria das vítimas identificadas em situações de tráfico internacional.
O relatório aponta ainda forte desigualdade racial. Pessoas pretas e pardas correspondem a mais de 70% das notificações registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e dos atendimentos realizados pela rede especializada de enfrentamento ao tráfico humano.
A gravidade desse crime também é ilustrada pelo relato de Luana Maciel, brasileira que afirma ter permanecido em cativeiro por mais de nove meses nos Estados Unidos após aceitar uma proposta de trabalho.
Natural de Brasília, ela viajou em 2014 com as duas filhas acreditando que trabalharia naquele país. No entanto, acabou levada para o estado de Kentucky, onde diz ter sido submetida a trabalho escravo, violência sexual e constantes ameaças.
Segundo Luana, os passaportes e telefones foram confiscados e todas as atividades eram rigidamente controladas pelos criminosos. A fuga só foi possível após ela e outras vítimas quebrarem uma parede de drywall da casa onde estavam presas e escaparem com as crianças.
Ela afirma que apenas depois de conseguir ajuda descobriu que havia sido vítima de tráfico de pessoas. Hoje trabalha nos Estados Unidos atendendo crianças vítimas desse tipo de crime e dedica parte de sua atuação à conscientização sobre os riscos das falsas promessas de emprego.
Enquanto isso, familiares dos brasileiros presos no Laos cobram respostas das autoridades brasileiras. Segundo Maria, a família recebe apenas informações de que a Embaixada do Brasil em Bangkok, responsável também pelo atendimento consular no Laos, aguarda autorização das autoridades locais para prestar assistência aos detidos.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que mantém contato com as famílias e realiza gestões junto ao governo do Laos para oferecer assistência consular aos brasileiros envolvidos, mas afirmou que não divulga detalhes dos atendimentos por questões de privacidade.







