Divulgação/Ricardo Stuckert/PR

A Ucrânia recebeu com preocupação a visita ao Brasil de Nikolai Patrushev, assessor do presidente russo Vladimir Putin, e demonstrou ressalvas sobre os temas discutidos durante a passagem do representante de Moscou pelo país. O encarregado de Negócios da Embaixada da Ucrânia no Brasil, Oleg Vlasenko, afirmou que a aproximação envolvendo defesa, construção naval e energia nuclear desperta atenção do governo ucraniano.

Em entrevista ao SBT News, Vlasenko destacou a trajetória de Patrushev nos serviços de segurança da antiga União Soviética e da Rússia. Segundo o diplomata, o assessor de Putin está diretamente ligado às políticas do governo russo relacionadas à guerra na Ucrânia e é alvo de sanções dos Estados Unidos e da União Europeia.

Apesar das críticas, Vlasenko reconheceu que o Brasil possui autonomia para manter canais de diálogo com Moscou. Para ele, porém, o nível da recepção oferecida a Patrushev e os assuntos tratados durante a visita justificam a preocupação de Kyiv.

Durante a passagem pelo Brasil, Patrushev se reuniu com integrantes do governo e autoridades brasileiras. Entre os encontros estiveram conversas com o ministro da Defesa, José Múcio, o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen, o embaixador Celso Amorim e representantes do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

O assessor russo também teve uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Lula, os dois trataram de temas como cooperação em energia, ciência e tecnologia, área naval, comércio bilateral, guerra na Ucrânia, ONU e Brics.

Para Vlasenko, o diálogo direto entre Lula e Putin pode ser útil, mas precisa produzir resultados concretos. O diplomata afirmou que a Ucrânia espera avanços em temas como um eventual cessar-fogo, proteção de civis, retorno de crianças ucranianas levadas para a Rússia e libertação de prisioneiros.

O representante ucraniano também afirmou que Kyiv espera uma atuação mais efetiva do governo brasileiro nas conversas diplomáticas sobre a guerra. Segundo ele, o encontro entre Lula e Volodymyr Zelensky durante a reunião do G7, em junho, deu novo impulso às relações entre os dois países, mas ainda não houve resultados considerados suficientes pela Ucrânia.

Vlasenko também afirmou que a Ucrânia pretende ampliar a cooperação econômica com o Brasil, especialmente em áreas relacionadas à reconstrução do país. Entre os setores citados estão tecnologia, habitação, energia, logística, agroindústria e desminagem.

Outro ponto de atenção envolve a possível participação de empresas brasileiras em cadeias de fornecimento relacionadas à produção de drones russos. O diplomata afirmou que, até o momento, não existem evidências que permitam acusar uma empresa brasileira específica de fornecer componentes para equipamentos utilizados pela Rússia.

A Ucrânia, segundo Vlasenko, acompanha possíveis rotas de reexportação e produtos de uso dual, que podem ter aplicações civis e militares. O diplomata ressaltou, porém, que um eventual interesse russo em produtos brasileiros não significa, por si só, que exista fornecimento efetivo.

Na área militar, Vlasenko também mencionou o interesse ucraniano no A-29 Super Tucano, fabricado pela Embraer. Segundo ele, Kyiv já havia demonstrado interesse na aeronave antes da invasão russa em larga escala e atualmente avalia seu potencial para missões de defesa contra drones.

A Ucrânia também mantém o convite para que Lula visite o país. O governo ucraniano espera ainda uma viagem do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a Kyiv, mas, segundo o diplomata, Brasília ainda não confirmou publicamente datas para as visitas.

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