A empresária Cleusimar Cardoso de Jesus, mãe da ex-sinhazinha do Boi Garantido Djidja Cardoso, rompeu o silêncio após deixar o regime fechado e fez um apelo pela acolhida do filho Ademar Cardoso, também envolvido nas investigações relacionadas à morte da irmã. Em uma carta aberta dirigida aos funcionários do salão Belle Femme, ela defendeu que a memória de Djidja seja preservada sem que isso represente a rejeição ao irmão e pediu que a história da família não seja julgada apenas pelas notícias divulgadas desde 2024.

“Acolher Ademar não significa esquecer Djidja. Amar Djidja não exige rejeitar Ademar. Ninguém precisa escolher”, escreveu a empresária em um dos trechos mais marcantes da manifestação.

Intitulada “Belle Femme — Uma história de amor, raízes, cores e propósito”, a carta representa a primeira manifestação pública de Cleusimar após a progressão para o regime semiaberto, concedida pela Justiça do Amazonas no fim de setembro. O documento mistura lembranças da filha, explicações sobre a trajetória do salão, manifestações de fé e um pedido de reconstrução dos vínculos familiares.

Cleusimar também aborda um dos assuntos que ganharam repercussão durante as investigações: a utilização de seringas no estabelecimento. Segundo sua versão, os materiais eram empregados originalmente para controlar a quantidade de produtos de beleza utilizados nos atendimentos e evitar desperdícios.

Cleusimar pede que funcionários não rejeitem Ademar

O principal apelo da carta é direcionado à maneira como Ademar deve ser recebido pelos profissionais do Belle Femme. Cleusimar procura resgatar a participação do filho no crescimento da empresa e sustenta que o reconhecimento dessa trajetória não diminui a importância de Djidja.

A empresária afirma que Ademar trabalhou nos bastidores, ajudou a modernizar processos administrativos, introduziu estratégias de organização e incentivou mudanças na gestão do salão.

“Uma raiz não precisa arrancar a outra para existir. Uma flor não precisa destruir outra flor para continuar sendo bonita. E uma família não deixa de ser família porque atravessou uma tempestade”, escreveu.

Em outro trecho, Cleusimar pede que os funcionários conheçam o filho para além das acusações e da repercussão pública do caso.

“Notícia não é convivência. Quem está de fora recebe fragmentos. Quem vive dentro conhece detalhes”, declarou.

Ela também defende que os questionamentos relacionados à família sejam esclarecidos por meio de documentos, provas e procedimentos adequados.

“Uma acusação precisa ser acompanhada de provas. Uma conclusão precisa estar amparada pelos fatos”, afirmou.

As declarações representam o posicionamento pessoal da empresária e não afastam a necessidade de apuração dos fatos pelas autoridades responsáveis.

Empresária apresenta sua versão sobre seringas utilizadas no salão

Outro ponto da carta é a explicação apresentada por Cleusimar sobre o uso de seringas no Belle Femme, assunto que ganhou destaque durante a repercussão do caso Djidja Cardoso.

De acordo com a empresária, a prática teria começado após Djidja participar de um curso com Dani Venâncio, no qual recebeu orientações sobre empreendedorismo, organização e economia na administração de empresas.

Cleusimar afirma que a filha levou para o salão a ideia de utilizar seringas para medir quantidades de shampoo, condicionador, máscaras capilares e outros produtos.

“Era uma ferramenta de economia e organização dentro do salão”, escreveu.

A empresária sustenta que, posteriormente, a palavra “seringa” passou a ser associada a outras narrativas divulgadas durante as investigações.

“Uma palavra isolada pode ser transformada em símbolo de alguma coisa que não representa a sua origem”, afirmou.

A explicação apresentada por Cleusimar diz respeito à versão dela sobre uma prática do estabelecimento. Não constitui conclusão sobre as circunstâncias investigadas no caso, que devem ser analisadas a partir das provas e dos procedimentos judiciais.

“Djidja foi a essência do Belle Femme”, relembra a mãe

Ao recordar a trajetória da filha, Cleusimar relata que Djidja cresceu acompanhando o funcionamento do salão, fundado em 2001, quando ela precisava garantir o sustento dos dois filhos.

Segundo a empresária, a menina começou a participar das atividades do estabelecimento ainda na infância e, por volta dos 12 anos, tornou-se seu braço direito.

Djidja passou a contribuir com fotografias, divulgação, maquiagem, escolha de produtos, administração, contratação de profissionais e produção de conteúdo.

“Djidja foi a essência do Belle Femme. Ela faz parte de cada canto deste lugar”, escreveu.

Cleusimar também revelou que a própria identidade visual da empresa carrega uma homenagem à filha. Segundo ela, a letra B da logomarca foi inspirada no rosto de Djidja, ainda criança.

A empresária recorda que a filha sonhava em ser cabeleireira e que, com o passar dos anos, tornou-se uma das principais referências públicas do estabelecimento.

Em uma das passagens mais emocionais, Cleusimar afirma acreditar que a morte não encerrou os vínculos afetivos com a filha.

“Para mim, Djidja partiu para outro plano espiritual. O corpo muda. A forma de existência muda. Mas aquilo que é verdadeiro dentro de nós não deixa de existir”, escreveu.

Carta anuncia momento de reencontro e reconstrução

Na parte final da mensagem, Cleusimar apresenta o futuro do Belle Femme como uma oportunidade de reconstrução após os acontecimentos que atingiram a família.

A empresária utiliza a imagem de uma árvore para representar a história do salão. Ela se identifica como a primeira raiz, enquanto Djidja e Ademar aparecem como partes fundamentais do crescimento da empresa.

Os funcionários e clientes são comparados às flores de um jardim construído ao longo de mais de duas décadas.

“E agora existe um novo momento. Um momento de reencontro. Um momento de acolhimento. Um momento de reconstrução”, declarou.

Cleusimar encerra a carta reafirmando que pretende preservar a memória da filha, reconhecer a participação do filho e manter viva a história do estabelecimento.

“Nós somos Belle Femme. E essa história, minha gente, ainda não terminou.”

Cleusimar foi recebida com festa após deixar o regime fechado

A manifestação ocorre cerca de duas semanas depois de Cleusimar deixar o regime fechado. No dia 29 de setembro, amigos organizaram uma festa para recebê-la no Belle Femme, localizado no bairro Parque 10, zona Centro-Sul de Manaus.

Conforme reportagem publicada pelo Fato Amazônico, a comemoração teve toadas dos bois Garantido e Caprichoso e cartazes com mensagens de acolhimento, entre elas a frase “O amor liberta”.

Cleusimar foi condenada em julho de 2026 a 10 anos e 11 meses de prisão em processo relacionado ao tráfico de cetamina, investigado no âmbito da Operação Mandrágora. Ademar também está entre os condenados no processo.

A progressão ao semiaberto foi autorizada pela juíza Sabrina Cumba Ferreira, da 2ª Vara de Execução Penal de Manaus, após o reconhecimento dos requisitos para o benefício. A empresária permanece submetida a condições judiciais, incluindo monitoramento eletrônico e recolhimento domiciliar em horários determinados.

A mudança de regime não representa absolvição nem encerramento da pena.

Leia a carta na íntegra

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