
A descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, anunciada pela Petrobras na última sexta-feira (14), voltou a provocar críticas de organizações ambientais e reacendeu o debate sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial. Entidades que atuam na defesa do meio ambiente e na transição energética questionam os riscos de uma nova fronteira de exploração na região amazônica e alertam que a presença de petróleo não significa, necessariamente, que a produção comercial seja ambientalmente viável.
A coordenadora da frente de Oceanos do Greenpeace Brasil, Mariana Andrade, afirmou que a descoberta não deveria ser tratada como uma conquista antes de serem avaliados os riscos ambientais e a viabilidade da exploração. Segundo ela, a região possui alta sensibilidade ambiental e a atividade ocorre em um contexto de compromissos assumidos pelo Brasil para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
A oceanógrafa também citou um episódio registrado em janeiro de 2026, quando houve vazamento de fluido de perfuração durante as atividades no poço. O caso resultou em uma multa de R$ 2,5 milhões aplicada à Petrobras. Para a representante da organização, o episódio reforça a necessidade de cautela antes do avanço de novas etapas de exploração.
O Instituto Internacional Arayara, que atua em temas relacionados à justiça climática e à transição energética, também manifestou preocupação com a possibilidade de abertura de uma nova fronteira de exploração de petróleo na região. A entidade chama atenção para a proximidade da área com a foz do Rio Amazonas e para os possíveis impactos sobre ecossistemas e comunidades que dependem dos recursos naturais.
O presidente do Arayara, Juliano Bueno, afirmou que é necessário diferenciar a descoberta de petróleo da possibilidade de exploração comercial. Segundo ele, a existência de hidrocarbonetos não significa que a atividade seja automaticamente ambientalmente aceitável ou compatível com os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.
A discussão ocorre após um longo processo de licenciamento ambiental envolvendo o bloco FZA-M-59, localizado na Margem Equatorial. A autorização concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) permitiu que a Petrobras realizasse a perfuração exploratória em águas profundas na costa do Amapá.
O licenciamento provocou resistência de organizações ambientais e movimentos sociais. No ano passado, oito entidades ligadas a povos indígenas, comunidades quilombolas e pescadores artesanais ingressaram com uma ação na Justiça Federal do Pará contra a União para tentar suspender as atividades de perfuração.
Os grupos alegaram que o processo de licenciamento apresentava falhas e não teria considerado adequadamente possíveis impactos climáticos, ambientais e sociais. Também questionaram os efeitos da atividade sobre comunidades tradicionais e a biodiversidade existente na região.
A autorização também gerou críticas por ter ocorrido em um período próximo à realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, realizada em Belém, no Pará. Ambientalistas apontaram uma possível contradição entre a expansão da exploração de petróleo e os discursos do governo federal em defesa da transição energética.
Em julho deste ano, a Petrobras informou que abandonaria definitivamente as atividades do primeiro poço exploratório aberto na região da Foz do Amazonas. A nova descoberta, porém, voltou a colocar a área no centro do debate sobre o futuro da exploração de petróleo no país.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende a exploração na região como uma estratégia para gerar recursos que poderiam ser utilizados no desenvolvimento de fontes renováveis. Para o governo, a produção de petróleo ainda pode desempenhar um papel durante o período de transição para uma matriz energética menos dependente dos combustíveis fósseis.
Em declaração feita na Indonésia após a primeira autorização do Ibama, em outubro de 2025, Lula afirmou que os recursos obtidos com o petróleo poderiam ser utilizados para ampliar as condições de transição energética do Brasil. O presidente também argumentou que, enquanto houver demanda mundial por combustíveis fósseis, o país não deveria abrir mão de suas reservas.
A estratégia está relacionada ao Plano Nacional de Transição Energética (Plante), elaborado pelo Ministério de Minas e Energia. O documento prevê o aumento da participação de fontes renováveis na matriz energética brasileira, incluindo energia solar, eólica e biocombustíveis.
A meta estabelecida pelo plano é alcançar, até 2055, uma participação de pelo menos 62% de fontes renováveis na matriz. Segundo especialistas citados no debate, porém, seria necessário ampliar ainda mais essa participação para que o país atinja níveis considerados compatíveis com seus compromissos climáticos no âmbito do Acordo de Paris.
O especialista em transição energética do WWF-Brasil, Ricardo Fujii, questiona também o custo de uma eventual exploração comercial na Foz do Amazonas. Segundo ele, os investimentos necessários poderiam ser direcionados para projetos de eletrificação e expansão de fontes renováveis.
Fujii citou uma análise de custo-benefício realizada com metodologia do governo federal e afirmou que os recursos necessários para desenvolver uma grande unidade flutuante de produção de petróleo, conhecida como FPSO, poderiam gerar retorno econômico e social diferente caso fossem aplicados em projetos de eletrificação renovável.
O especialista também apontou dúvidas relacionadas aos estudos utilizados no processo de licenciamento ambiental, principalmente em relação à possibilidade de vazamento de óleo e à dispersão do material no oceano.
Segundo Fujii, a modelagem apresentada pela Petrobras utilizou dados hidrodinâmicos de 2013, embora existam informações mais recentes, produzidas em 2024. Ele também questionou a ausência de determinados cenários relacionados ao uso de dispersantes em uma eventual emergência ambiental.
O uso desses produtos para combater vazamentos de petróleo já foi associado a impactos ambientais em outros acidentes, como o desastre ocorrido no Golfo do México em 2010. Na ocasião, parte da mistura de óleo e dispersantes atingiu áreas profundas e afetou organismos marinhos.
Para o especialista, a preocupação é ainda maior devido à importância ecológica da costa amazônica. A região possui áreas de recifes e outros ecossistemas marinhos que funcionam como habitat para espécies importantes para a pesca artesanal.
Outro ponto destacado é a concentração de manguezais na costa amazônica. Segundo Fujii, aproximadamente 80% dos manguezais brasileiros estão localizados nessa região, o que amplia a preocupação com os possíveis efeitos de um eventual acidente com petróleo.
A Petrobras ainda precisa concluir as etapas de avaliação do poço Morpho para determinar o volume da descoberta e verificar se existe viabilidade econômica para uma futura produção. Portanto, a confirmação da presença de hidrocarbonetos representa apenas uma etapa inicial do processo, que ainda depende de estudos técnicos, ambientais e econômicos antes de qualquer decisão sobre exploração comercial.







