
Uma estrutura financeira clandestina apontada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) como um verdadeiro “Banco do Crime” teria sido utilizada para movimentar e ocultar recursos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
As descobertas fazem parte da Operação Janus, iniciada em julho deste ano. Na última sexta-feira (11), o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) apresentou denúncia contra 19 pessoas, acusadas de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Segundo a denúncia, o grupo teria operado de maneira estruturada entre 2019 e 2025, utilizando empresas de fachada, contas bancárias de terceiros e pessoas interpostas para esconder a origem dos valores.
Esquema fazia “troca de TED por vivo”
De acordo com o GAECO, uma das práticas utilizadas pelos operadores financeiros era chamada de “troca de TED por vivo”.
Integrantes ou colaboradores ligados ao crime organizado entregavam dinheiro em espécie aos operadores. Em contrapartida, recebiam transferências bancárias de valores equivalentes realizadas a partir de contas de terceiros ou empresas utilizadas pelo grupo.
Dessa forma, segundo a investigação, o dinheiro físico era inserido no sistema financeiro formal com uma aparência de origem lícita.
O procedimento também funcionava no sentido inverso. O cliente fazia uma transferência eletrônica para contas controladas pelo grupo e recebia, em troca, dinheiro em espécie.
Movimentação financeira chamou atenção dos investigadores
A investigação identificou movimentações consideradas incompatíveis com as atividades declaradas por empresas relacionadas ao grupo.
Um dos casos citados na denúncia envolve uma empresa que teria movimentado R$ 28 milhões em apenas seis meses.
O valor era quase seis vezes superior ao faturamento anual declarado pela empresa, de aproximadamente R$ 5,3 milhões, segundo o Ministério Público.
Para os investigadores, as movimentações e o fracionamento de valores indicariam mecanismos destinados a ocultar a origem e a circulação dos recursos.
Disputas eram levadas ao “Tribunal do Crime”
Além das suspeitas de lavagem de dinheiro, a denúncia aponta que integrantes do grupo recorriam à estrutura de poder do PCC para solucionar conflitos relacionados a negócios particulares.
Segundo o MPSP, divergências financeiras eram encaminhadas ao chamado “Tribunal do Crime”, mecanismo utilizado por integrantes de facções para impor decisões por meio de estruturas paralelas de autoridade e intimidação.
Entre os episódios mencionados estão disputas envolvendo a negociação de uma casa de luxo na Riviera de São Lourenço, avaliada em R$ 4 milhões, e de um galpão.
Os envolvidos teriam submetido os conflitos a instâncias internas da facção, citadas na investigação pelos nomes “Resumo de São Paulo” e “Pé Quebrado”.
GAECO pede reparação de pelo menos R$ 10 milhões
Na denúncia, o GAECO também defende que os acusados sejam condenados ao pagamento de pelo menos R$ 10 milhões como forma de reparação por danos coletivos e sociais.
Segundo o Ministério Público, os valores estariam relacionados aos prejuízos provocados pela suposta atuação criminosa e pela violação de princípios ligados à segurança pública e à paz social.
A denúncia ainda será analisada pela Justiça, que deverá avaliar as acusações e as provas apresentadas pelo Ministério Público.







