Por Luís Lemos: filósofo, professor e escritor

Há trajetórias que não se explicam apenas pelos caminhos percorridos, mas, sobretudo, pelas escolhas, pelos desafios enfrentados e pelo compromisso de transformar conhecimento em instrumento de compreensão do mundo. É nesse espírito que encerramos a edição de 2026 de nossa série de entrevistas dedicada aos filósofos e as filósofas de Manaus, apresentando o pesquisador Carlos Santiago. Mais do que conhecer a trajetória de um pesquisador, esta entrevista nos convida a pensar sobre a força transformadora do conhecimento e sobre o lugar da Filosofia em nosso tempo. Leia, reflita e celebre conosco o encerramento deste ciclo, ao lado de mais uma voz fundamental da Filosofia produzida em Manaus.

1. Quem é você? Conte-nos um pouco sobre sua história de vida, sua formação e sua trajetória na Filosofia. Em qual instituição e em que ano você se graduou em Filosofia?
Sou Carlos Santiago, nascido em Manaus, em 1966. Minha história é marcada pela superação. Filho de mãe solteira, nasci em uma área onde funcionava uma lixeira pública, no bairro do Aleixo, e fui alfabetizado apenas aos 14 anos, em uma escola pública. Desde cedo, descobri na leitura um caminho de transformação, recolhendo livros e jornais nas lixeiras para alimentar minha curiosidade e ampliar meus horizontes. Minha formação acadêmica começou nas Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde desenvolvi pesquisas sobre política e fui posteriormente eleito presidente da Associação dos Cientistas Sociais do Amazonas. Em seguida, graduei-me em Direito pela Faculdade Martha Falcão, fiz pós-graduação em Ciência Política e atuei como professor em diferentes instituições de ensino. Durante a pandemia de COVID-19, decidi aprofundar meus estudos filosóficos e ingressei no curso de Filosofia da UFAM, aonde venho investigando temas relacionados à ética, à justiça, à liberdade e à condição humana.

2. Como nasceu o seu interesse pela Filosofia? Houve algum acontecimento, professor, livro, experiência ou autor que tenha despertado em você o desejo de seguir esse caminho intelectual?
Embora as questões sobre ética, justiça e felicidade sempre tenham despertado meu interesse, foi durante a pandemia de COVID-19 que meu contato com as obras de Friedrich Nietzsche marcou definitivamente minha aproximação com a Filosofia. A leitura de seus escritos despertou em mim o desejo de compreender mais profundamente a existência humana, a liberdade, a verdade, a desigualdade e outros grandes temas filosóficos. Esse interesse levou-me a ingressar no curso de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde tenho aprofundado essas reflexões.

3. Você possui livros ou outras obras publicadas? Em caso afirmativo, apresente-os brevemente e conte-nos um pouco sobre os temas ou questões que eles abordam.
Além da atuação acadêmica e profissional, escrevo crônicas sobre o cotidiano e apresento um podcast dedicado à Filosofia Política. Atualmente, preparo o lançamento de dois livros. O primeiro aborda a democracia e seus desafios na sociedade contemporânea; o segundo analisa as ideologias políticas e seus impactos na vida social, procurando compreender como as diferentes correntes de pensamento influenciam as instituições, a cidadania e a convivência democrática.

4. Em sua opinião, quais são os maiores desafios enfrentados por quem escolhe a Filosofia como profissão, vocação ou modo de vida?
A Filosofia nos convida a pensar criticamente em uma época marcada pela pressa, pela superficialidade e pela polarização. Talvez esse seja seu maior desafio: preservar o diálogo, a reflexão e a busca pela verdade em uma sociedade que muitas vezes privilegia respostas prontas e opiniões imediatas. Escolher a Filosofia é assumir o compromisso permanente de questionar, compreender e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, ética e consciente.

5. Que mensagem você gostaria de deixar aos leitores do portal Fato Amazônico, especialmente aos que ainda não tiveram a oportunidade de se aproximar da Filosofia?
Gostaria de dizer aos leitores do Fato Amazônico que a Filosofia não pertence apenas às universidades ou aos grandes pensadores do passado. Ela faz parte da vida de todos nós, sempre que refletimos sobre nossas escolhas, nossos valores e o sentido da existência. A leitura e o conhecimento transformaram a minha vida, e acredito que podem transformar muitas outras. Nunca é tarde para aprender, fazer perguntas e descobrir que o pensamento crítico é um dos maiores instrumentos de liberdade e de cidadania.

Com esta entrevista, encerramos a edição de 2026 do projeto Vozes da Filosofia de Manaus. Ao longo do ano, compartilhamos a trajetória e o pensamento de filósofos e filósofas que fortalecem a produção intelectual na Amazônia. Agradecemos profundamente a generosidade de cada entrevistado e a parceria dos nossos leitores, que tornaram este projeto possível. Nos vemos em 2027 com uma nova série de entrevistas e novas vozes para continuar celebrando a Filosofia em nossa região. Até lá!

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