Por Luís Lemos: professor, filósofo e escritor
Francisco das Chagas era um babalorixá respeitado, com mais de setenta anos dedicados ao sacerdócio no Candomblé. Durante toda a vida, conduziu os trabalhos religiosos de sua comunidade, aconselhou famílias e dedicou-se à preservação dos ensinamentos e fundamentos recebidos ao longo de sua trajetória religiosa.
Sentindo o peso da idade, decidiu preparar seu filho mais velho, Severino das Chagas, para assumir maiores responsabilidades na condução do terreiro. Todas as tardes, os dois se reuniam à sombra de uma frondosa mangueira, onde conversavam sobre tradições, responsabilidades e os cuidados necessários à preservação da casa. Sem que eles percebessem, sua neta mais velha, Fernanda, acompanhava atentamente aqueles encontros, ouvindo cada uma das lições transmitidas pelo avô.
Certa tarde, ela perguntou: — Vovô, por que o senhor é chamado de babalorixá e minha madrinha de ialorixá? Francisco sorriu. — Babalorixá é uma das denominações utilizadas para uma liderança religiosa masculina, enquanto ialorixá designa uma liderança religiosa feminina. Ambos podem exercer importantes funções na condução de uma casa de Candomblé, de acordo com os fundamentos e as tradições de cada comunidade.
A menina fez outra pergunta. — Existe diferença entre o Candomblé e a Umbanda? — Sim. O Candomblé é uma religião afro-brasileira constituída no Brasil a partir de diferentes tradições religiosas trazidas por povos africanos escravizados e preservadas e recriadas por seus descendentes. Suas práticas e fundamentos podem variar de acordo com as diferentes nações e tradições existentes.
— E a Umbanda? — A Umbanda também é uma religião brasileira, formada no início do século XX e marcada pelo diálogo entre diferentes tradições religiosas e culturais. Em muitas de suas práticas, estão presentes referências às religiões de matriz africana, ao Cristianismo, ao Espiritismo e às tradições indígenas. A Umbanda cultua os Orixás e trabalha, conforme suas diferentes linhas e tradições, com entidades espirituais como Caboclos, Pretos-Velhos e outras manifestações.
Fernanda sorriu. — Então são diferentes, mas ensinam valores importantes. — Exatamente. Conhecer as diferenças é importante, mas respeitá-las é ainda mais. Existem diferentes tradições religiosas e diferentes formas de compreender e buscar o Sagrado. O respeito é fundamental para que possamos conviver com essa diversidade.
Os meses passaram. Enquanto Severino assumia novas responsabilidades e aprofundava seus conhecimentos sobre a tradição da família, Fernanda demonstrava grande interesse pelos ensinamentos transmitidos dentro daquela comunidade.
Com o passar do tempo, Francisco percebeu que a neta também poderia desempenhar um papel importante na continuidade do legado religioso da família e da comunidade. Na tradição daquela casa, acreditava que Fernanda deveria ser preparada para assumir, no futuro, responsabilidades cada vez maiores.
Quando sentiu que sua saúde já não lhe permitia manter o mesmo ritmo de antes, Francisco chamou o filho. — Severino, durante muitos anos imaginei que você daria continuidade à minha caminhada. Mas compreendi que a responsabilidade de preservar esta casa precisa ser compartilhada e respeitada de acordo com os fundamentos de nossa tradição. Fernanda aprendeu muito convivendo conosco e acredito que deve ser preparada para assumir responsabilidades dentro desta comunidade.
Com os olhos marejados, Severino perguntou: — E qual será o meu papel? — Caminhe ao lado dela. Proteja-a, aconselhe-a e ajude-a a preservar nossa tradição. Liderar também é servir à comunidade. — Eu prometo honrar seus ensinamentos e ajudar a preservar o legado de nossa família — disse Severino.
Sete meses depois, após um período de atividades religiosas, Francisco das Chagas sentiu fortes dores nas costas e, nos dias seguintes, teve sua saúde rapidamente agravada. Enfraquecido, recolheu-se ao descanso e, pouco tempo depois, faleceu, deixando entre familiares, amigos e membros da comunidade a memória de um homem dedicado à tradição religiosa.
Após sua partida, a comunidade recordou seus ensinamentos e seu desejo de preservar a continuidade do terreiro. Fernanda das Chagas, que desde a infância acompanhava a trajetória religiosa da família e aprendera com os mais velhos, passou a ser preparada, de acordo com os fundamentos e tradições daquela casa, para assumir novas responsabilidades.
Ao assumir a liderança, compreendeu que ser ialorixá significava uma grande responsabilidade. Sua missão envolvia a dedicação à comunidade, a preservação dos fundamentos religiosos, o respeito à ancestralidade e a continuidade das tradições transmitidas pelas gerações anteriores.
O Terreiro Francisco da Mata consolidou-se como um espaço de preservação cultural e religiosa, convivência comunitária e continuidade de uma tradição construída ao longo de décadas. Apesar de sua importância cultural e religiosa, Fernanda das Chagas lembra que o preconceito contra as religiões de matriz africana ainda é uma realidade.
— “Eu só não deixo o senhor divulgar o endereço do nosso Terreiro porque ainda hoje sofremos muito preconceito e discriminação” – alertou Fernanda, a nova Ialorixá da comunidade.





